Vinícius Waltzer é estagiário no Diário Popular, jornal impresso de Pelotas. Há poucos dias o estudante fez uma matéria de duas páginas sobre a enchente em alguns locais da cidade. Para ele, esta foi a primeira reportagem de verdade. Para quem está do lado de fora é diferente, e é isso que ele relata da experiência.
"Chegando nos locais onde a água já estava avançando para dentro das casas, foi complicado. Tu, como repórter, queres ir mais perto, ver o que está acontecendo, perguntar sobre danos e até sobre a revolta das pessoas. Tu não te contenta em ver da rua que a água está entrando pela porta. Tu queres ter a visão de dentro da casa", conta.
Waltzer tem dúvidas se isso acontece com jornalistas mais experientes, pois ele nem se preocupava por estar ali molhado da chuva forte. "Na hora parece que tu tens que sentir o mesmo que as pessoas estão passando", diz. A revolta também atinge o estudante que percebe que esse tipo de situação sempre acontece com o lado mais fraco.
"Entramos em uma casa que só tinha um fogão à lenha. A dona estava parada na janela quando eu cheguei e contou que tinham quatro crianças dentro de casa com os pés dentro da água. A casa tinha essa espécie de cozinha e um outro cômodo, acho que era quarto. Mas não tinha mesa, nada. Só o fogão. Não descrevi a casa dela na matéria, mas depois fiquei pensando nisso. Era algo noticiável, mas na hora pensei na foto que achei que poderia sair na capa, e foi mesmo. Acho que a foto disse bastante e talvez se eu descrevesse a casa eu exploraria demais isso", conta. O fato era a enchente, por isso ele optou apenas por deixar que a foto falasse por si. Para o estagiário, esta é a grande diferença entre ir até o local e/ou pegar informações com a Defesa Civil depois.
| Vinícius Waltzer durante a cobertura da enchente em Pelotas. Foto: Paulo Rossi |
A enchente foi sem grandes danos, não foi como as anteriores. Mesmo assim, é sempre um transtorno. "Fica sempre aquela questão ética de fazer a matéria ou sair carregando as pessoas para um abrigo, mas acho que fazer a matéria é fazer alguma coisa. São situações extremas que fazem o repórter se perguntar mais sobre as coisas que está fazendo. E isso é bom", finaliza Waltzer.
Por detrás da lente
Nauro Júnior é repórter fotográfico. Há 13 anos trabalha na sucursal do jornal Zero Hora em Pelotas, responsável pela cobertura dos municípios do sul do estado. Dos seus 40 anos, 20 foram dedicados à fotografia. Não foi a primeira enchente que cobriu, mas as histórias sempre são novas. Através do blog Retratos da Vida, o fotógrafo compartilha com os leitores um pouco de sua caminhada. Desta vez, contou um pouco sobre a chuva.
Júnior conta que a terça-feira (18) foi um dos dias em que saiu para rua só para ver tristeza. A foto abaixo tem uma história, contada pelo próprio fotógrafo. Veja:
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| A imagem mostra o pai abrigando os filhos do jeito que consegue. Foto: Nauro Júnior |
"Passei por este cara empurrando o carrinho com dois bebês dentro e outra criança ao lado. Achei legal a imagem, mas estava com pressa e passei reto. Na volta cruzei o cara de novo. Precisava enviar as fotos de alagamentos para Porto Alegre e deixei passar. Quando estava indo para casa almoçar cruzei novamente e resolvi fazer uma foto pois achei que havia ternura na cena. Bati uma, duas, três fotos. Até que o cara se aproximou e perguntou pra que eram aquelas fotos. Eu respondi que usaria no meu blog porque era bonito ver um pai cuidando dos filhos e usando os únicos guarda-chuvas para proteger os rebentos e se expondo a chuva. Perguntei onde estava a mãe. Ele me falou que era pai e mãe. E me contou uma história tão triste que não vou reproduzir", conta. diz. Júnior conta que mesmo com tanta tristeza, o pai não reclamou da vida.
Outra história que aconteceu foi em Cristal, onde um muro de um cemitério desabou e deixou vários túmulos expostos. "Corpos se misturaram ao lodo que escorria por uma ladeira. O senhor Ivo Nacente tentava encontrar os restos mortais da mãe que estava enterrada em um dos túmulos que despencou na ribanceira", lembra. Júnior conta que o filho relatou que quando a dor da perda da mãe estava quase cicatrizando, precisou enterrá-la outra vez. Isso porque usaram materiais de segunda linha para fazer o muro. "Pra botar algum no bolso eles brincam com os sentimentos das pessoas", disse o homem ao fotógrafo. Júnior diz que a frase cortou seu coração.
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| Homem sofre ao ter que enterrar a mãe novamente devido ao desmoronamento do muro do cemitério que desabou. Foto: Nauro Júnior |
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